Investimento pode fazer PIB superar 6%

Conjuntura: Projeções para 2010 apontam maior alta dos últimos anos, apesar da perda que virá das importações

Sergio Lamucci, João Villaverde e Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo
03/12/2009

A taxa de crescimento do produto Interno Bruto (PIB) de 2010 pode passar de 6%. Há um crescente número de economistas que aposta nessa taxa forte e a explicação para um percentual tão alto está no investimento. Bancos e consultorias que apostam em PIB superior a 6% projetam, também, um aumento dos gastos em máquinas, equipamentos e construção civil próximo a 20% no ano que vem.
É principalmente essa aposta que explica a diferença entre as projeções que ficam entre 4% e 5% e as que superam esse percentual. Há um consenso entre as consultorias de que a demanda interna será forte - entre 7% e 8%, na média das previsões. Há também consenso de que as importações atenderão parte importante desse consumo e, por isso, vão afetar o PIB negativamente e reduzir seu tamanho final. Nas contas do Santander, as importações vão tirar dois pontos do PIB - ele poderia ser de 6,8%, mas ficará em 4,8%, diz Cristiano Souza, economista do banco.
Para as instituições e consultorias que esperam um desempenho menor do PIB em 2010, o investimento também cresce, mas de forma mais modesta. Para a MB Associados, que estima um aumento de 5% do PIB, o investimento sobe 5,9%, quase metade da elevação de 11,5% projetada pelo BNP Paribas, que calcula a alta do PIB em 4,1%.
O Credit Suisse desenha um cenário extremamente positivo para o Brasil em 2010, apostando em alta do PIB de 6,5%. Metade desse crescimento virá da expansão de 20% da formação bruta de capital fixo (FBCF, que mede o que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos), diz o economista-chefe do banco, Nílson Teixeira. Segundo ele, parte da alta forte se explica pela fraca base de comparação - a FBCF deve cair 13,5% neste ano -, mas haverá genuína retomada das inversões.
"Os investimentos aumentarão de modo significativo nos próximos trimestres como resultado da expectativa de expansão da atividade por vários anos", afirma Teixeira, para quem a aceleração da oferta de crédito pelos bancos privados e públicos contribuirá para esse processo. Ele afirma ainda que o aumento da poupança externa também financiará a expansão dos investimentos em 2010 e 2011, "compensando a baixa taxa de poupança doméstica".
O diretor de Pesquisa e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, também projeta expansão de 20% da FBCF em 2010. "A retomada do investimento em nosso cenário está pautada na expectativa de aumento da demanda doméstica", afirma Barros.
Para ele, a recuperação das inversões é fundamental por dois aspectos: primeiro, por mostrar que "o setor privado está crescendo justamente quando os estímulos fiscais, como a redução do IPI, estão diminuindo, o que sugere que o crescimento da economia será sustentável mesmo com a retirada dos impulsos". O segundo ponto é que ele "revela uma leitura generosa do futuro por parte dos empresários, que antecipam a continuidade da expansão da demanda nos próximos trimestres".
Barros destaca ainda a perspectiva de aceleração das inversões do setor público, por causa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da ampliação do crédito do BNDES e do restante do sistema bancário e das perspectivas favoráveis para o mercado de capitais. Pelas contas de Barros, o investimento voltará a equivaler a 19% do PIB em 2010 - o mesmo nível de 2008 - depois de cair para 16,9% do PIB este ano. Para Teixeira, a taxa de investimento ficará em 18% do PIB no ano que vem, superando os 19% do PIB só em 2011.
De acordo com a LCA Consultores, a taxa de investimentos terá contribuição negativa de dois pontos percentuais no PIB deste ano - que, segundo a consultoria, deve crescer 0,6%. A situação se inverte no ano que vem. Segundo Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, os investimentos terão participação positiva de 2,7 pontos na formação do PIB, que aumentará 5,6% em 2010. "A virada no PIB, saindo de recessão para crescimento alto, é sustentada na virada do investimento", diz ele.
O outro grande motor do crescimento em 2010 será o consumo das famílias, segundo Bradesco e Credit Suisse. O Credit aposta em crescimento de 7,6% nesse componente do PIB e em uma taxa média de desemprego de 7,5%, o nível mais baixo da série iniciada em 2003. Ao mesmo tempo, diz que a massa salarial real deve crescer 6,1%, bem acima dos 3,2% de 2009. O Bradesco é um pouco mais conservador quanto à expansão do consumo das famílias, acreditando em alta de 5,1% em 2010.
Teixeira chama a atenção para o desempenho extremamente positivo que deverá ter a demanda doméstica (consumo das famílias, consumo do governo e investimento). Da alta de 6,5% projetada para o PIB, 8,6 pontos percentuais deverão vir daí, enquanto o setor externo deverá "tirar" 2,1 pontos do crescimento no ano que vem, já que as importações de bens e serviços devem aumentar 23,7%, bem acima da alta de 6,1% das exportações. Barros acredita que a contribuição da demanda doméstica para o PIB será de 8,7 pontos.
Para Alexandre Lintz, estrategista do BNP Paribas, o setor manufatureiro brasileiro "vai sofrer muito" na nova relação internacional de forças, por falta de demanda externa e da dificuldade de competição com os países da Ásia, cujas moedas estão bem mais desvalorizadas do que o real e a mão de obra, mais barata.
Em 2010, diz, todos os canais de distribuição dos produtos asiáticos no mercado brasileiro estarão montados. O impacto dessas importações sobre a produção será significativa, acredita Lintz, e o hiato do produto vai continuar amplo, de forma que o BC brasileiro não precisará subir os juros no ano que vem. Para ele, a demanda interna fará um aumento de 5,1% do PIB, mas a demanda externa vai contribuir com 1% negativo, deixando a alta em 4,1%.
Tomás Málaga, economista do Itaú Unibanco, concorda que o setor manufatureiro ainda não recuperou a média diária de exportação de US$ 400 milhões que chegou a atingir antes da crise. Hoje, exporta em torno de US$ 280 milhões por dia. No seu entender, o aumento dos investimentos, de 16,2% do PIB neste ano para 17,5% em 2010 e a expansão no setor de serviços e na exportação de produtos básicos vão permitir um crescimento de 5,5% no PIB no ano que vem. A demanda interna será responsável por uma expansão de 7% e a externa, por queda de 1,5%.

Falta consenso sobre juros
Os economistas se dividem quanto às pressões inflacionárias que decorrerão do forte ritmo de atividade de 2010 e, consequentemente, têm opiniões distintas sobre a taxa de juros. Apesar de prever um crescimento de 6,5%, Nílson Teixeira, do Credit Suisse, considera que seria possível atravessar 2010 sem aumento de juros e sem pressões inflacionárias relevantes. Octávio de Barros, do Bradesco, é mais cauteloso, avaliando que será necessário um aumento de juros mais forte para moderar o crescimento - e não abortá-lo - e manter a inflação em trajetória compatível com as metas.
Para Teixeira, o juro real de equilíbrio hoje é menor do que antes da crise, o crescimento potencial (aquele que não acelera a inflação) é maior do que se estimava anteriormente e, depois de recessões, é possível haver uma expansão mais forte da economia sem elevação de preços. Apesar disso, ele trabalha com elevação dos juros, hoje em 8,25% ao ano, a partir do segundo trimestre, que atingiriam 10,25% no fim do ano, voltando a cair em 2011. Ele projeta uma inflação de 4,2% neste ano e de 4% em 2010, abaixo do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%.
Barros espera um aperto monetário total da Selic de 4 pontos percentuais, que terminaria apenas em março de 2011. A inflação, por sua vez, deve ficar em 4,7% no ano que vem, um pouco acima do centro da meta, devido à aceleração do crescimento do PIB. (SL)

Para analistas, descontrole fiscal poderá "estrangular" crescimento a partir de 2011
Anna Carolina Negri/Valor

O crescimento elevado em 2010 está contratado. Mas o crescimento do pós-crise é sustentado em bases frágeis, e a conta desta expansão do Produto Interno Bruto (PIB) só será paga pelo próximo governante. Esta é a avaliação de economistas como Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, e José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior.
Loyola, atualmente sócio-diretor da Tendências Consultoria, acredita que o "descalabro fiscal" promovido no segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será um fator de "estrangulamento" do PIB, a partir de 2011. No mesmo ano, avalia Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, a situação fiscal deixará de ser "tema circunscrito a fóruns e vai passar a ser problema premente para a sustentação do crescimento".
Bancos e consultorias já trabalham com taxas próximas a 5% de elevação no PIB do próximo ano, e alguns apostam em altas superiores a 6% (ver reportagem acima). Acelerando o ritmo de crescimento, o país deixou a recessão no segundo trimestre, depois que o acirramento das turbulências mundiais, a partir de setembro de 2008, desencadeou um mergulho recessivo na maior parte dos países. Com a concessão de benefícios fiscais, cortes nas taxas de juros, fortalecimento do crédito à pessoa física por meio dos bancos públicos, apontam os analistas, o governo conseguiu "contornar" a crise.
"O país trabalhou muito bem neste ano, mas, ao mesmo tempo", diz Loyola, "antecipamos um problema fiscal que só viria mais à frente". Segundo os economistas presentes em seminário promovido pela Serasa Experian, o incremento dos gastos com funcionalismo, seja aumentando as contratações, seja ampliando salários - que já era colocado em prática antes da explosão da crise -, funcionaram como a parte mais expressiva da política anticíclica promovida pelo governo federal.
"Gastos desse perfil não podem ser considerados anticíclicos. Não há uma maneira eficiente de cortá-los ou reduzi-los, o que caracterizaria uma política anticíclica", avalia Luís Paulo Rosenberg, sócio da Rosenberg & Associados. Para ele, o aumento da despesa alcança patamares "dramáticos". "Não há risco de descontrole fiscal em 2010, uma vez que o descontrole já ocorre desde, pelo menos, 2008", afirma.
Segundo Mendonça de Barros, a situação atual chama a atenção pela confluência de fatores conjunturais. Ao mesmo tempo em que a recessão criou a necessidade de aumento de gastos, também fez diminuir a arrecadação federal. "A receita já começa a dar mostras de que voltará com tudo no ano que vem, o que ajudará o cenário eleitoral. Mas, como os gastos já estão contratados por muitos anos, vai criar uma bomba para o próximo presidente", afirma.
Paulo Rabello de Castro, sócio-diretor da RC Consultores, avalia que a situação fiscal é "principal problema interno", ainda que não tenha força para retirar pontos do crescimento. No entanto, é a situação externa que afasta o conforto. "Não vejo um horizonte tão bonito para o ano que vem. Os analistas precisam perceber que a crise mundial ainda não acabou e não podemos crescer isolados", afirma. Para Castro, o PIB brasileiro crescerá apenas 3,7% no ano que vem, atrapalhado por um crescimento mais modesto dos países desenvolvidos. Castro aponta que o PIB americano deve crescer zero em 2010, o que torna a recuperação do comércio internacional - e consequentemente da economia mundial - mais vagaroso.
Segundo Loyola, a economia mundial está "dopada por remédios", simbolizados pelos estímulos - gastos elevados, emissão de moeda, aumento de endividamento, isenções fiscais - que, ao mesmo tempo em que melhoraram a situação no curto prazo, "empurram para o médio e longo prazo uma solução". A avaliação de Rosenberg é mais pessimista. Para ele, os estímulos não servem como remédio, porque pioram o problema "estrutural" do sistema. "É como dar cocaína a um paciente de UTI. Ele vai se sentir melhor na hora, mas, quando passar o efeito, ele terá um problema novo." (JV)

Fonte: Valor Econômico