Cresce disputa tarifária entre empresas do setor aéreo

Gol lança promoções no aeroporto de Campinas e é acompanhada pela Azul
Companhias passam a oferecer voos de Viracopos para Porto Alegre, Salvador e Recife com tarifas a partir de R$ 99 o trecho


MARIANA BARBOSA
DA REPORTAGEM LOCAL

A guerra tarifária se acirrou no aeroporto de Viracopos, em Campinas, base da novata Azul. Ontem, a Gol lançou uma nova promoção com tarifas de R$ 99 para voos de Campinas para Recife, Salvador e Porto Alegre. Ao saber da promoção pela reportagem da Folha, o presidente da Azul, Pedro Janot, determinou que sua equipe equiparasse os preços da empresa com os da concorrência.
"Nós sempre bancamos as promoções das outras companhias", disse Janot. O executivo disse ainda que a empresa não está preocupada com a baixa rentabilidade provocada pela guerra tarifária.
Em entrevista publicada na Folha na terça-feira, o vice-presidente de relações institucionais da Azul, Adalberto Febeliano, declarou que a guerra de preços afetou a rentabilidade da empresa a partir de agosto, revertendo um equilíbrio alcançado em julho.
Janot não quis comentar a declaração do colega, mas disse que a equipe da Azul nunca subestimou o duopólio TAM-Gol. "Essa guerra fazia parte do nosso cenário e nós temos uma estrutura de custos muito eficiente", disse ele. "Nunca desprezamos o duopólio. Mas, quando entramos, a TAM e a Gol tinham juntas 92% do mercado. Hoje elas têm 86%", afirmou. Além da Azul, Webjet e OceanAir ganharam mercado. Juntas, as três detêm 11,68% do mercado doméstico.
A promoção da Gol entrou em vigor às 20h de ontem e é válida até o dia 12, para viagens realizadas até o dia 16 de dezembro. "Vamos colocar a nossa a partir das 20 horas também", disse Janot na tarde de ontem.
Procurada, a Gol informou que não poderia dar declarações por estar em período de silêncio, regra da CVM para períodos que antecedem a divulgação de balanços. A TAM também foi procurada, mas não quis comentar.
Antes da chegada da Azul, TAM e Gol tinham poucos voos e frequências saindo do aeroporto de Campinas. Mas, à medida que a Azul foi lançando voos, as duas líderes entraram nas mesmas rotas. Apenas nas rotas da promoção iniciada ontem, a Gol lançou duas frequências diárias no início do mês passado.
A atual guerra tarifária teve início com a chegada da Azul, em dezembro do ano passado, mas se acirrou nos últimos meses. Em setembro, segundo levantamento da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), os preços das tarifas atingiram o nível mais baixo do ano.
Essa promoções têm estimulado a demanda por viagens de avião no mercado doméstico, revertendo os efeitos da crise financeira no setor. Depois de se retrair no último trimestre do ano passado e no primeiro trimestre deste ano, o setor aéreo vem crescendo a uma taxa superior a 20% desde julho. Os números referentes a outubro serão divulgados pela Anac na próxima semana, mas a expectativa é a de um crescimento acima de 30%.

Classe C viaja mais e turbina turismo no país, diz estudo
JOHANNA NUBLAT
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O brasileiro viajou mais a turismo pelo país nos últimos dois anos, segundo indica pesquisa divulgada ontem pelo Ministério do Turismo. O percentual dos que fizeram pelo menos uma viagem interna passou de 32,4%, entre 2005 e 2007, para 58,8% nos últimos dois anos (variação de 83,7%).
O estudo mostra ainda que caiu de 32,5% para 7,6% o percentual de brasileiros que não viajaram nos dois anos anteriores e não pretendiam viajar nos dois seguintes.
O gasto médio total dos que viajaram, por outro lado, teve uma queda de 9% no período. Essa diminuição pode ser explicada em parte pela ampliação da base dos consumidores, trazendo para o consumo pessoas com renda menor, diz Márcio Nascimento, diretor do Departamento de Promoção e Marketing Nacional da ministério. Outra justificativa, segundo a pasta, é o barateamento de parte dos serviços.
A presença maior das pessoas de renda mais baixa deve fazer a "indústria do turismo repensar o hábito do mercado", afirma o ministro da pasta, Luiz Barretto. "Há uma nova classe média com quem dialogar. Mais de 60% de quem viajou ganha até dez salários mínimos. A chamada classe C tem um peso também no turismo."
Além desse fator, outros colaboraram para o aumento do turismo nacional, como a crise econômica e a gripe A (que diminuíram viagens para países vizinhos), diz o governo.
A pesquisa foi feita pelo Instituto Vox Populi, com 2.322 entrevistas entre junho e julho deste ano em 11 capitais. Foram ouvidos maiores de 18 anos, de todas as classes econômicas. A margem de erro é de dois pontos percentuais. O perfil traçado do viajante brasileiro mostra que ele viaja principalmente com a família, para destinos no Nordeste e por um curto período de tempo (54,6% por até uma semana).
A grande maioria (80,3%) se desloca nas férias e um número expressivo viajou nos feriados e finais de semana prolongados (66,8%) nos últimos dois anos -a pesquisa anterior mostrava um percentual menor, de 41%.
O brasileiro também recorre mais a dicas de conhecidos e à internet para planejar sua viagem, buscando agências especializadas em viagens apenas em 5,6% dos casos.
As estradas são usadas pela maioria das pessoas: 41,8% usam normalmente o carro, e 23,8%, o ônibus. O avião é usado por 33,5% dos viajantes.
Apesar de pensarem o deslocamento com certa antecedência, 19,9% dos viajantes pagam a viagem em até sete dias da partida. O pagamento é feito à vista em 63,2% dos casos.
Esses dados se referem ao chamado cliente atual, ou seja, o que viajou pelo menos uma vez nos últimos dois anos. A pesquisa mostra ainda as expectativas do cliente potencial: o que demonstra interesse de procurar destinos nacionais nos próximos dois anos.
Há diferenças entre esses dois públicos, como a renda. Enquanto 35,5% dos que viajaram têm renda familiar de até cinco salários mínimos, 58,5% dos que pretendem viajar nos próximos anos pertencem a essa faixa salarial. Trabalhar esse "turismo social", oferecendo produtos às classes C e D, é um dos principais pontos da pesquisa que podem levar ao desenvolvimento de políticas públicas e privadas, explica Elisangela Machado, do CET (Centro de Excelência em Turismo) da UnB. Outro é a referência ao maior uso de hotéis. "Se eu tenho mais brasileiros viajando e vou ter um incremento ainda com a Copa, como vou atender meu público interno e externo?"

Fonte: Folha de S.Paulo