Blitz da Receita intimida jornal argentino
Em meio a disputa com governo Cristina Kirchner, "Clarín", principal diário do país, é alvo de operação com cerca de 200 fiscais
SILVANA ARANTES
DE BUENOS AIRES
O jornal "Clarín", principal diário argentino, pertencente ao maior grupo de comunicação do país, interpretou como um ato de intimidação por parte do governo Cristina Kirchner o ingresso de cerca de 200 agentes da Receita Federal em sua sede, numa operação-surpresa de inspeção, ontem, em Buenos Aires.
"Não temos nenhum inconveniente em prestar informações à Receita. Mas esse é claramente um sinal de intimidação. O que chama a atenção é a desproporção do procedimento", disse Martín Etchevers, gerente de comunicação externa do Grupo Clarín, que emprega 15 mil profissionais -1.500 deles no jornal.
O editor-geral-adjunto do "Clarín", Ricardo Roa, associou a operação a reportagem publicada ontem pelo jornal, que denunciava operação irregular de 10 milhões de pesos (US$ 2,5 milhões) na Oncca, órgão de controle agropecuário ligado à Receita. A fraude teria sido feita para favorecer um empresário próximo ao governo.
"A associação é obvia. Entendo que o kirchnerismo está buscando reter o poder e ter mais poder sobre a imprensa", afirmou Roa. O diretor da Receita Federal argentina, Ricardo Echegaray, citado na reportagem, negou, em carta endereçada a Roa, ter dado a ordem para a operação e afirmou que afastará o funcionário responsável por sua realização.
O procedimento da Receita Federal argentina, que o "Clarín" classificou de "invasão", foi imediatamente condenado pelas principais vozes de oposição ao governo, como o deputado Francisco De Narváez e o líder agropecuário Hugo Biolcatti, que disse: "Este país está perdendo as regras do jogo".
Nas últimas semanas, desde que Cristina enviou ao Congresso um projeto de lei que disciplina os serviços de radiodifusão (leia mais nesta página), intensificou-se o clima de confronto entre o governo e o Grupo Clarín.
O ex-presidente e marido de Cristina, Néstor Kirchner, afrontou um repórter do grupo durante uma entrevista coletiva, na semana passada. Kirchner disse que o "Clarín" o ataca não por razões jornalísticas, mas para "manter sua posição monopolista", e afirmou que o repórter não deveria indagar sobre as finanças de Kirchner -alvo de investigação-, assim como ele não pedia explicações sobre o modo como a proprietária do "Clarín", Ernestina Herrera de Noble, gerencia a sua fortuna.
Interlocutores de Kirchner fazem chegar à imprensa a versão de que ele trata o confronto com o "Clarín" como "uma batalha de vida ou morte". De Noble já se referiu publicamente ao fato de que seria senso comum entre os governantes argentinos que "não se pode governar tendo o "Clarín" contra".
No mês passado, a presidente sugeriu ser vítima de um "fuzilamento midiático". O desentendimento de seu governo com o "Clarín" tem origem na cobertura que os veículos do grupo fizeram do conflito entre o setor agropecuário e o governo, em 2008.
Na avaliação do governo, o "Clarín" insuflou a opinião pública contra Cristina, apoiou o locaute dos produtores agropecuários e foi determinante para a derrota imposta à Presidência pelo Congresso no tema.
Neste ano, o "Clarín" tem dedicado amplo espaço a reportagens com denúncias de corrupção no governo Kirchner e à investigação da hipótese de enriquecimento ilícito do casal Kirchner, cujo patrimônio aumentou declarados 158% no ano passado.
Com tiragem média de 353 mil exemplares nos dias de semana e 713 mil exemplares nas edições de domingo, o "Clarín" influi não apenas na formação da opinião de seus leitores.
É comum que os demais veículos da imprensa argentina incorporem os termos com os quais o diário classifica as notícias. Exemplos recentes são a expressão "tarifaço", para um aumento de luz anunciado pelo governo, e "lei de controle dos meios de comunicação", para o projeto governista da nova lei de radiodifusão.
Nesta semana, o diário "Ámbito Financiero" publicou declarações de um ex-executivo do banco JP Morgan em que ele sugere ter facilitado procedimentos de evasão fiscal na gestão de contas no exterior da proprietária do "Clarín".
Lei em debate prejudica Grupo Clarín
DE BUENOS AIRES
Na versão do governo argentino, seu projeto de lei de serviços audiovisuais objetiva aperfeiçoar a democracia, promovendo a desconcentração da propriedade de meios de comunicação de massa.
Na avaliação de quase toda a imprensa argentina, o projeto tem um alvo -destruir o Grupo Clarín. A atual lei de radiodifusão é de 1980, período ditatorial e anterior a tecnologias como TV a cabo, internet e telefonia celular.
O novo texto incorpora essas formas de transmissão de conteúdo, mas restringe a capacidade de uma mesma empresa operar em múltiplas frentes.
Se o projeto for aprovado como está, estima-se que o Grupo Clarín terá de abrir mão de 236 licenças de exploração de serviços das 264 que possui hoje.
Uma hipótese seria o grupo desistir de seus rentáveis negócios em TV a cabo, que seriam prejudicados pela autorização dada pela nova lei à entrada das empresas de telefonia nesse mercado.
A lei, sob análise de comissões do Congresso, vem sendo debatida em audiências públicas.
Com o avanço do trâmite legislativo, supõe-se que o presidente do Senado e vice-presidente da República, Julio Cobos, terá outra ação decisiva, como na derrubada do projeto de Cristina que motivou o conflito com o campo. (SA)
Fonte: Folha de S.Paulo