Governança calculada
Estudo mostra que adoção de medidas que dão maior proteção ao acionista se reflete em redução de custo de capital para a empresa.
Por Luciana Monteiro, de São Paulo
21/06/2010
Muito se fala sobre as vantagens trazidas para a imagem de uma empresa que adere às boas práticas de governança corporativa. Mas, mais do que isso, a adoção de medidas que demonstram maior preocupação com o investidor se traduz em redução no custo de capital. É o que mostra, na ponta do lápis, um estudo elaborado pelo professor Alexandre Espírito Santo, diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ. O assunto é tema de dissertação de mestrado em economia empresarial defendida pelo professor na Universidade Cândido Mendes, no Rio.
Para chegar a essa conclusão, o professor selecionou a Net para avaliar os dados abrangendo as taxas de juros sobre o custo de capital de terceiros da empresa de 1999 até 2007. Analisou ainda outras variáveis, como a taxa de juros de longo prazo (TJLP), cobrada nas linhas de crédito do governo, e o retorno das ações em relação ao Ibovespa. "Os trabalhos sobre governança corporativa sempre seguem a linha de mostrar o quanto ela faz bem para a empresa, mas é difícil ver algo que confirme isso de maneira empírica, com números", explica.
A escolha da Net ocorreu porque o autor queria selecionar uma empresa do setor de serviços, com ações negociadas na bolsa e integrante do Ibovespa. Segundo Espírito Santo, a decisão de avaliar os dados até 2007 se deve à crise de 2008, que elevou o custo de capital para todas as empresas e, portanto, poderiam distorcer o resultado. "Apesar de o setor de serviços da economia ter importante participação no PIB, ele possui dificuldades maiores para conseguir capital a custos mais baixos", escreve o professor.
O estudo revela que, após aderir ao Nível 1 de governança corporativa, ainda como Globo Cabo em junho de 2001 e, um ano depois, ao Nível 2, a Net registrou uma redução considerável do custo de seu endividamento, aumentando a avaliação ("valuation") da companhia no mercado. No quarto trimestre de 1999, por exemplo, o custo de capital da empresa era de 86,80%. Já no segundo trimestre de 2002, esse custo caiu para 36,50%, subindo para 63,90% nos primeiros três meses de 2003. A partir daí, o custo de capital da Net veio caindo, até atingir 9,30% no quarto trimestre de 2007.
Isso significa, de acordo com o professor, que, em períodos de normalidade macroeconômica, "as empresas que fazem uso dos critérios de governança tendem a ser premiadas pelos investidores com menores custos de endividamento." Isso, por consequência, reduz o custo médio do capital da empresa - o chamado WACC, sigla para Weighted Average Cost of Capital -, aumentando o valor da empresa.
Apesar de o professor ter ficado restrito ao caso Net em sua tese, ele também pesquisou o efeito da governança corporativa sobre outras empresas, como Cemig, Celesc e Brasil Telecom. "Em todas, há a mesma tendência", diz. "Todas possuem essa característica de serviços e a provável maior dificuldade de captar", diz. Ele observa, porém, que as empresas de energia apresentam menor queda de custos, "talvez pelo fato de serem estatais".
Na opinião de Espírito Santo, num ambiente de intensa competição, uma das formas de uma empresa se sobressair é, cada vez mais, melhorar a relação com seus potenciais financiadores e/ou investidores. Para a companhia, a mensagem que fica é que adotar boas práticas de governança é positivo, já que reduz o custo de capital, diz o professor. "Já para o investidor, quando há redução de custo de capital, a empresa tem um melhor 'valuation'", afirma. Ou seja, vale mais.
Muitos investidores, no entanto, acreditam que o mercado deveria premiar as companhias que aderiram a um dos níveis de governança, pagando mais pelas ações dessas empresas. O professor mostra, no entanto, que, para o investidor, a presença ou não de governança corporativa representa um fator de risco. Este fator é reduzido à medida que as empresas passam a adotar melhores práticas de governança, o que diminuiria a chance de surpresas desagradáveis, escreve o autor.
Mas, na verdade, quanto melhor a governança, menor deveria ser o retorno esperado das ações e, em consequência, maior o valor relativo destas empresas, proveniente da maior confiança dos investidores. "Então, não se deve esperar um retorno maior de tais empresas, já que a premissa de finanças é que risco e retorno esperado devem andar pari passu", diz o professor.
Fonte: Valor Econômico