Estudo
coloca em xeque relação entre aumento de imposto e investimento
Sergio Lamucci
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) coloca em
xeque a idéia de que aumentos da carga tributária prejudicam o
investimento privado. Com o uso de modelos econométricos, dois economistas
da instituição não encontraram uma correlação
direta entre elevações do peso de impostos e o investimento das
empresas, analisando o período entre 1995 e 2006. Nos últimos
dois anos, a formação bruta de capital fixo (FBCF, que mede o
que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos)
cresceu a taxas de dois dígitos, mesmo num cenário de expansão
robusta da carga tributária - em 2007, a arrecadação federal
aumentou 11% em relação a 2006, já descontada a inflação.
O trabalho mostra também uma forte correlação positiva
entre o investimento privado e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo os modelos testados, pode variar entre 1 e 1,6. Isso significa que,
a cada 1% de expansão do PIB, o investimento privado aumenta de 1% a
1,6%. "Há uma alta elasticidade do investimento ao PIB, que reage
muito ao crescimento da demanda", diz o economista do Ipea Manoel de Castro
Pires, um dos autores do estudo "Qual a Sensibilidade do Investimento Privado
a Aumentos na Carga Tributária?", em parceria com Cláudio
dos Santos. Os dois são da recém-criada coordenação
de finanças públicas, subordinada à diretoria de Estudos
Macroeconômicos do Ipea.
No começo de 2007, Pires e Santos fizeram um estudo sobre a sensibilidade
do investimento à carga tributária, que mostrou uma significativa
correlação negativa entre as duas variáveis, com uma elasticidade
próxima a -1 - elevações da carga tributária equivalentes
a 1% como proporção do PIB tenderiam a provocar quedas de cerca
de 1% no investimento privado. Com a divulgação da nova série
do PIB, eles decidiram revisar os números e os resultados econométricos,
de acordo com a nova metodologia do IBGE. Nas novas contas, o PIB ficou bem
maior do que era, ao passo que houve uma queda do investimento como proporção
do PIB, lembra Pires. No caso dos números de 2006, a FBCF caiu de 19,9%
do PIB na metodologia antiga para 16,8% do PIB no cálculo novo.
Ao refazerem os modelos, Pires e Santos não encontraram a forte correlação
negativa que o estudo anterior mostrara entre o investimento privado e a carga
tributária. Pires diz que os motivos para essa mudança ainda não
estão claros. Uma hipótese é que aumentos de produtividade
sejam mais importantes para o crescimento da economia nos anos recentes do que
se imaginava. A nova metodologia do IBGE indicou que a economia cresce mais
com um menor volume de investimentos como proporção do PIB. Mais
produtivas, as empresas aumentam o grau de formalização dos trabalhadores
e lucram mais. Isso leva a uma expansão da carga tributária -
as companhias pagam mais impostos -, e cresce o investimento privado. "Mas
são apenas hipóteses."
Os resultados também indicam correlação negativa entre
o investimento privado e os preços dos bens de capital, mas ela varia
muito, dependendo do modelo: oscila entre -0,08 e -1,09, o que significa que
uma alta de 1% nas cotações dos bens de capital pode provocar
uma queda de 0,08% a 1,09% no investimento das empresas.
Além disso, Pires e Santos encontraram uma correlação positiva
significativa entre a alta da carga tributária e a elevação
dos preços de bens de capital. A elevação de 1% como proporção
do PIB do sistema de impostos tende a acarretar aumentos de 2,33% a 3,19% nas
cotações de máquinas e equipamentos. Esse resultado indica
que a expansão da carga tributária pode afetar indiretamente o
investimento privado, segundo Pires, pois o estudo também mostrou que
o encarecimento dos bens de capital tende a afetar negativamente as inversões
das empresas.
A questão é que o trabalho não encontrou uma evidência
robusta de que o investimento privado sofra significativamente com a alta das
cotações de máquinas e equipamentos. "Não se
sabe se a magnitude da elasticidade é grande", diz Pires. Ela pode
ser muito próxima de zero ou mesmo elevada. Não há como
concluir que a alta da carga tributária prejudica indiretamente o investimento
privado.
Pires e Santos usaram técnicas de cointegração para fazer
os testes, com o objetivo de separar as dinâmicas de curto prazo das de
longo prazo. Numa economia sujeita a choques como a brasileira, essa separação
é importante, diz Pires. Mesmo num período curto em termos históricos
como o analisado no trabalho, de 1995 a 2006, houve uma mudança estrutural
relevante em 1999, quando o câmbio passou a flutuar.
Fonte: http://www.fenacon.org.br/pressclipping/2008/janeiro/ve/ve180108a.htm