Mérito
da reforma tributária é ser uma agenda positiva
Editorial
A proposta de reforma tributária que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve enviar amanhã ao Congresso tem enormes chances de empacar em intermináveis negociações e inamovíveis discordâncias entre os entes da Federação, como das vezes anteriores. Ela é, no entanto, uma chance ímpar de governo e Congresso reinaugurarem uma agenda positiva, que simplesmente deixou de existir a partir de 2005, quando o Executivo foi acuado por denúncias de corrupção e a oposição legislativa reduziu o Parlamento às funções de uma delegacia de polícia. Sair da paralisia institucional representa, hoje, reduzir o enorme descompasso entre a política e o Brasil real. O país ganhou movimento, ritmo e vida própria, reflexos não apenas de um momento incomum da economia, mas da própria incapacidade do sistema político de mediar pressões e conciliar interesses.
O tema reforma tributária sempre tende ao impasse, já que envolve
o debate sobre a questão federativa, mas, pela sua abrangência,
pode ao menos ser um exercício de negociação entre Executivo
e Legislativo. Sem negar a importância da divergência no Congresso,
a radicalização excessiva da luta parlamentar tem impedido sistematicamente
acordos sobre questões de interesse do país. Os partidos políticos
representados no Legislativo atuam sob a lógica meramente eleitoral,
esquecendo-se que a atividade parlamentar é parte de um sistema de poder
- e, nesse sistema, para o Executivo executar, o Legislativo tem que legislar.
Na ausência de canais de negociação, o governo tem abusado
das medidas provisórias, que por sua vez têm o poder de imobilizar
ainda mais o Congresso, que por sua vez se abstém de votar essas medidas.
E assim a paralisia política se auto-alimenta, reduzindo ainda mais a
atuação parlamentar ao bate-boca-para-eleitor-ver e estimulando
o fácil recurso do governo às MPs.
Parte da oposição tem objetado que a proposta de reforma seria
uma manobra do governo para abafar a CPI dos Cartões Corporativos, o
escândalo do momento. As comissões de inquérito, no entanto,
são apenas parte da atividade parlamentar. O Legislativo não pode
abrir mão de seu poder fiscalizador, mas tem mantido uma linha tênue
entre as CPIs ruidosas e sem profundidade dos últimos anos, destinadas
ao público-eleitor via TVs Câmara e Senado, e a investigação
policial - o que as tem diferenciado, aliás, é que a polícia
se mostra mais eficiente na apuração de crimes do que os parlamentares.
O Congresso tem se colocado como um xerife, mas mostra, à profusão,
enormes limitações para exercer esse papel. Tem limitado a sua
atuação às salas das comissões de inquérito,
abrindo mão da função que lhe é própria,
de mediador dos interesses dos grupos sociais e das unidades federativas. Sem
negar a sua função fiscalizadora - os parlamentares devem mantê-la,
porém aprimorando técnicas de investigação e atuando
em sintonia com as polícias e o Ministério Público -, o
Congresso deve retomar sua função mediadora. É possível
fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Terá uma nova chance, na discussão
sobre a reforma tributária.
O apoio expresso do governador de Minas, Aécio Neves, à proposta
de reforma - seja ele movido ou não por razões político-eleitorais
-, tem o mérito de despartidarizar a questão e evitar que ela
caia na vala comum da radicalização política. O Legislativo
pode aproveitar a deixa. Se, no entanto, se abstiver de fazer mediação,
corre o risco de que outros assumam esse papel - e, mais uma vez, em assuntos
de interesse para o país, será um coadjuvante. Quando não
assume o papel central da negociação no debate legislativo, o
Congresso deixa de votar - cai no imobilismo, portanto -, ou impõe a
decisão de uma maioria que atende apenas a um determinado grupo de pressão,
ou ainda simplesmente referenda o que foi negociado fora dele.
As peças estão sendo colocadas no tabuleiro: o governo saiu da
defensiva e propôs uma emenda, o governador Aécio Neves deu a largada
para despartidarizar a discussão e os partidos políticos colocaram
na mesa a discussão das medidas provisórias. Falta, agora, mais
um empurrão para colocar a política em movimento. Se o Congresso
assumir uma posição ativa no debate, estará dada a largada
para esse jogo.
FONTE: http://www.fenacon.org.br/pressclipping/2008/fevereiro/ve/ve270208b.htm