Por Rosângela Ribeiro Gil*
Altamiro Borges é jornalista engajado na luta sindical e política.
Tem sete livros publicados. Escreve artigos para vários sites, como Vermelho
e Adital. É editor da revista Debate Sindical. É sempre convidado
para discutir a comunicação e sindicalismo em seminários,
debates, fóruns. É uma referência importante para o movimento
de esquerda do Brasil. Neste exato momento, em junho de 2008, Borges é
um militante otimista com as condições que favorecem a retomada
da boa luta sindical.
Em 2005, no livro “A Encruzilhada do Sindicalismo”, o jornalista desenhava um cenário pouco favorável à organização sindical dos trabalhadores brasileiros. Três anos bastaram para que esse cenário mudasse, e para melhor. É o que ele discorre no seu mais novo livro, “Sindicalismo, resistência e alternativas”.
Nesta entrevista à coluna Debate Sindical, Altamiro Borges fala sobre a fragilidade do império do mal, os Estados Unidos, como um dos fatores que favorecem a correlação de forças para os movimentos sociais, como o sindical. E destaca a luta pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais como a grande bandeira unificadora do movimento sindical brasileiro.
Debate Sindical – Para quê e porque os trabalhadores lutam hoje?
Altamiro Borges – Eu penso que hoje a grande luta dos trabalhadores é
pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Essa
luta conseguiu unificar as principais centrais sindicais brasileiras. Essa luta
está tendo uma compreensão do governo federal. Recentemente, o
presidente Lula afirmou que estava havendo um grande crescimento da lucratividade
das empresas em função da maior produtividade decorrente das novas
tecnologias e que estava na hora de repartir essa lucratividade, então
defendeu a redução da jornada. Essa luta interessa aos desempregados
e aos trabalhadores que estão na ativa. Aos desempregados, porque o Dieese
calcula que reduzindo a jornada de 44 para 40 horas semanais de imediato seriam
criados dois milhões e 250 mil empregos. E se, além disso, for
controlada a hora extra, acabar com os bancos de horas que são uma excrescência,
e adotar outras medidas na questão das horas extraordinárias mais
um milhão e 100 mil empregos seriam criados. Isso, então, resultaria
numa geração grande de emprego. Isso ocorreu na França,
por exemplo, quando reduziu a jornada de 40 horas para 35 horas semanais.
Debate Sindical – E aos trabalhadores que estão na ativa?
Altamiro Borges – Interessa aos trabalhadores que estão na ativa.
Hoje a maioria da população está concentrada nos centros
urbanos, então trabalha oito, dez, 11 horas durante o dia, perde mais
três horas no transporte, (o trabalhador) não tem tempo para nada.
Ele leva uma vida sem sentido. Ao reduzir a jornada de trabalho o trabalhador
tem mais tempo para estudar, para lazer, para participar das atividades sindicais,
inclusive, e vai ter mais tempo para namorar. O que é um negócio
muito positivo. Então eu acredito que essa é a grande bandeira
do momento: a redução de jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Debate Sindical – Tem mais bandeiras ou é só essa da redução
da jornada?
Altamiro Borges – Tem outras duas bandeiras que ganharam importância.
Recentemente, o governo federal encaminhou uma mensagem (ao Congresso Nacional)
propondo a ratificação das convenções 151 e 158
da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A primeira, a
151, garante o direito do servidor público de negociação
coletiva. E a segunda, a 158, que entendo ser uma medida de grande impacto,
proíbe a demissão imotivada. Hoje, no Brasil, o patronato utiliza
a demissão imotivada com dois fins: um é estimular a rotatividade
para rebaixar o salário, esse é um motivo econômico; e o
outro é um motivo político, uma forma de ameaça, se a pessoa
se sindicaliza, participa de uma assembléia ou faz uma crítica
é demitido levianamente. Essa Convenção 158 proíbe
essas demissões por motivos políticos. Então isso teria
um grande impacto e fortaleceria muito o movimento sindical e acabaria com uma
grande injustiça.
Debate Sindical – O senhor tem um livro com o título “A
Encruzilhada do Sindicalismo”, e agora lançou o livro “Sindicalismo,
resistência e alternativas”. A qual sindicalismo, resistência
e alternativas o senhor se refere?
Altamiro Borges – De um livro para o outro são três anos
de diferença. De três anos para cá, eu avalio que ocorreram
mudanças no Mundo do Trabalho e na correlação de forças.
Debate Sindical – O senhor se refere ao Brasil ou é um fator de
mudança no sindicalismo mundial?
Altamiro Borges – Mundial. O movimento sindical não é uma
ilha. Ele reflete o que passa na sociedade. Ele reflete e interfere. Então
depende muito da correlação de forças. Eu acho que de três
para cá houve uma alteração de correlação
de forças. Por que que eu falo isso? Por exemplo, os Estados Unidos,
que no meu entender são o grande inimigo da humanidade, se fragilizaram
nesse período. Como diz o professor Emir Sader, você mede a força
de um império nas armas, no dinheiro e nas palavras. E nos três
quesitos os Estados Unidos se fragilizaram. Estão sofrendo um bocado
no Iraque e no Afeganistão. No dinheiro, não precisa nem falar,
é uma economia que está “bichada”, totalmente parasitária,
pendurada na brocha, quebrando. E nas palavras vamos ver o triste fim desse
presidente terrorista George W. Bush. Ele está para ser expulso da Casa
Branca. Há, inclusive, um fenômeno nos Estados Unidos que é
o descontentamento acabou se expressando numa candidatura que ninguém
iria imaginar um tempo atrás, de um negro, num país que tem uma
marca racista muito forte. Esse é um fator que favorece o movimento dos
povos do mundo inteiro, o império do mal está frágil, não
é que ele esteja derrotado ou caindo.
O segundo fator é que cresce a resistência no mundo inteiro, seja
do movimento jovem que procura um outro mundo é possível, seja
a resistência de potências rivais que vão nascendo, como
China, Índia, Rússia, mesmo o Brasil joga um papel nisso. Seja
a resistência que se dá dos povos no nosso Continente. A América
Latina está vivendo uma situação inédita. O professor
José Luiz Fiori tem ressaltado isso. Nunca aconteceu, na América
Latina, tantos governos progressistas, com ritmos e concepções
diferenciados, estarem hegemonizando a América Latina hoje. Isso também
é um fator que fortalece a luta dos trabalhadores.
Debate Sindical – E no Brasil?
Altamiro Borges – No Brasil há fatores que fortalecem a luta do
movimento sindical. Esse tímido crescimento da economia, apesar do “pé
no breque” do Henrique Meirelles (presidente do Banco Central) e dos riscos
dos efeitos da recessão dos Estados Unidos no Brasil, apesar de tudo
isso esse tímido crescimento da nossa economia gera emprego. Ao gerar
emprego, aumenta o poder de barganha dos trabalhadores. Segundo o Dieese, quase
90% dos acordos coletivos do ano passado obtiveram aumento real de salário,
fato inédito nas últimas décadas. Nós estávamos
conseguindo só corrigir a inflação e olhe lá, quando
não ficava abaixo da inflação o reajuste salarial. Isso
decorre do emprego. Aumentou o número de emprego, aumenta o poder de
barganha do trabalhador. Pela primeira vez em 20 anos, tem trabalhador pedindo
as contas. Ele acha que tem condições de arrumar emprego melhor.
Isso aumenta a auto-estima do trabalhador, inclusive.
Debate Sindical – Estamos num cenário diferente?
Altamiro Borges – Nós estamos começando a discutir medidas
de ampliação de direitos, e não reduzi-los. É o
caso das 40 horas semanais, das convenções 151 e 158, do fim do
fator previdenciário, que é uma injustiça com os aposentados
e pensionistas, da legalização das centrais sindicais. Ou seja,
nós estamos num cenário realmente diferente, se o movimento sindical
vai conseguir aproveitar isso para resolver a sua crise estrutural é
outra coisa, só a história vai dizer, mas que as condições
hoje são mais favoráveis eu penso que são.
Fonte: http://diap.ps5.com.br/content,0,1,81885,0,0.html